Muito se fala sobre a gestação feminina. Mudanças físicas e fisiológicas, comportamentais, enfrentamentos inimagináveis a qualquer um ou uma que nunca venha a ter essa experiência, a de engravidar. O evento tem como protagonista a mulher, seu corpo e seu espírito, mas seria correto concluir que o evento só importa ao protagonismo? Dos homens, em especial, que se propõem a acompanhar suas mulheres intimamente nesse período, acredito que a resposta seria não. Sei que existem livros e estudos profundos sobre a transformação da mulher e acredito que deva haver sobre o que se passa com esses homens. Nunca os li e o que escrevo, o faço estritamente do ponto de vista de onde estou hoje: esperando uma criança.

De início, preciso ser franco: entendo os homens que se afastam desse período, definitivamente ou não. Entendo o peso que isso possa significar. A mudança que o casal pode (mas não necessariamente irá) enfrentar tem um peso sobre ambos, e o mais provável é que nenhum dos dois tenha tido qualquer preparo pra lidar com nada disso, ou que experiências prévias não transformem a experiência do momento em algo do tipo que se tire de letra. Se é porque evoluímos de forma a nos afastarmos dos processos naturais a ponto de termos nos tornado hipersensíveis ao que deveria ser, simplesmente, mais um evento na vida de um ser humano, a inabilidade no cumprimento de uma etapa, não é o caso. Tenho mais necessidade de tratar do que é nesse texto/desabafo.

Retomando, entendo a disposição de homens de se afastar desse processo. Já fui mais crítico com relação a isso, e sempre condenei quem o fazia. Meu pai, por exemplo, o fez. Acontece que é preciso muito esforço e abdicação para se sustentar e sustentar esse processo, e muito pouco antes disso. Pode ser bastante desconfortável tornar-se pai, como dificilmente o seria antes disso.

Tenho conversado com alguns homens e mulheres, na intimidade, fora daquela zona poética e politicamente correta que se preocupa com passar uma boa imagem. Nessas conversas, encontro pessoas que durante a gestação chegaram ao ponto de ter que se tolerar, mas não sem considerar separação; pessoas que perderam sono, viçosidade, se tornaram mais abatidas e tiveram velhos medos batendo nas suas cabeças de dentro pra fora e eu aposto que senão todas, a maioria adoraria não ter que enfrentar tudo aquilo – de insônia à dúvidas, passando por enjoos matinais e oportunidades de se conseguir uma fuga momentânea. Ou definitiva. O que nos traz de volta à possivelmente incômoda afirmação: entendo a necessidade que um homem sinta de buscar alívio ao momento. O que, convenhamos, é natural. Afinal, todo estresse não merece um alívio?

Talvez porque para as mulheres não há exatamente uma fuga fácil, pois como tudo que ela faz e sente repercute sobre o bebê, tenhamos um quadro mais complicado para elas. O aborto é uma medida de muito maior impacto – fisiológico, emocional e cultural – do que uma “escapadinha”. Além de ser definitiva. Para o homem, que não precisa carregar em seu corpo boa parte da transformação que isso implica, basta dar meia volta e esquecer durante algum tempo suas obrigações enquanto pai e marido e pronto, está numa zona mais confortável. E mais uma vez, eu digo: entendo perfeitamente essa necessidade! É algo renovador e me arrisco dizer que é um remédio para lidarmos com esse momento para o qual não fomos treinados, por tantos motivos que quando vejo uma condenação sobre as ações de um homem só pelo fato de sê-lo, não sei se fico mais indignado com a ignorância de quem a faz ou comovido pela ignorância (não a inocência!) de quem a sofre. E é aí que preciso esclarecer: entendo sim que você e eu, homens, busquemos algum alívio para nossas cargas pessoais. Mas não concordo com qualquer medida!

Qual é ou foi a sua fuga? Onde você encontrou o alívio que buscava para esse momento tão crucial em sua vida? Qual a qualidade, qual a natureza da sua medida?

Não há qualquer relação em que não estejam implícitos alguns limites. O limite da dor que se causa sobre o outro, por exemplo. Não há qualquer relação em que se aja de forma a infligir danos – de qualquer tipo – em que não se sofra alguma represália, alguma penalidade, nem que seja a perda da confiança daqueles a quem maltratamos. Mais simples ainda: não é o que queremos sofrer, não deveria ser algo a oferecermos.

Eu me vejo em tudo que descrevi até agora. Essas são percepções que pude levantar até agora, inclusive baseadas em erros. Não houve uma única vez em que fiz algo que machucasse minha esposa, agora gestante, em que eu não tenha me sentido muito mal. Nem sequer neutro eu me senti. Sempre mal. Isso por si só deveria ser o bastante para o bom e velho aprender com os erros. Mas tem mais, assim eu penso.

No compromisso com sua esposa, no apoio ao que ela necessita, o homem se torna parte de um processo e está aberto a vivê-lo, aprender com ele, transformar-se. Não como a mãe. E nem deveria ser! Ele não é uma mãe, ele é um pai! Alguém com um papel fundamental sobre esse novo ser, tal qual a mãe, diferentemente. Temos todo um aparato neurológico afetivo para a presença desse papel em nossas vidas, por isso, negligenciá-lo é privar aquele novo ser de algo que lhe é fundamental, é torná-lo carente e sujeito às consequências dessa carência.

Eu disse que nunca li os livros que tratam desses assuntos, da gravidez e dos impactos que essa pode causar sobre os pais, certo? Mas ouvi falar. Sei que há indícios de que a relação entre os pais, durante a gestação, afetará a formação do bebê. Faz muito sentido. A criança está imersa na bioquímica da mãe, que é totalmente relacionada às suas experiências de vida, hábitos alimentares, meio ambiente, etc. E à relação entre ela e às pessoas no entorno, marido incluso. Se esses dados estiverem certos, nosso papel para com nossos filhos já está em vigor durante a gravidez. Honestamente, acho que começa antes dela. De uma forma ou de outra, existe uma função a ser desenvolvida para com a criança nesse período. E com a mãe.

Saber dessas coisas não resolve os problemas. Há questões que fogem disso e mesmo as que não fogem, por vezes, escapa desse entendimento. Razões pra isso? Penso em algumas, e mais uma vez, não é o tema.

O tema é a reflexão sobre essa aspecto, sobre participar de maneira mais construtiva da gestação, sobre gerar junto, entendendo isso como função paterna, no mínimo, pois há também os não menos importantes papéis enquanto marido/companheiro, que não precisamos descrever (ou precisamos?) e o ético-moral, que nos solicita fazer nosso melhor a despeito das circunstâncias. Claro, sempre há a escolha. Mas penso num mundo onde o fazer apenas por si supere o fazer por todos e absolutamente nunca me vem um bom quadro à mente. Torço pra que seja seu caso, também.

Em suma, participar desse processo é gerar, também. Ao seu filho ou filha, e a si mesmo. A qualidade disso tudo está boa parte em nossas mãos, e o entendimento, mais do que nunca, ao nosso alcance.